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O que pode estar contribuindo para sua sensação de não desenvolvimento de proficiência?

O que pode estar contribuindo para sua sensação de não desenvolvimento de proficiência?

POR: Gabriela Imbernom – Gestora pedagógica da CCLi.

Na minha jornada como professora de inglês e formadora de professores de línguas estrangeiras sempre foi muito comum ouvir relatos de alunos adultos e professores que enfatizavam a dificuldade que sentiam em perceber evolução no aprendizado. “Não consigo me comunicar.”. “Não consigo entender nada.”. “Minha pronúncia nunca melhora.”. Quando não percebemos evolução em algo que fazemos, sabemos muito bem onde isso vai acabar, não é? Muito provavelmente esse aluno desiste de conquistar seu objetivo de desenvolvimento de proficiência e ganha um enorme sentimento de frustração. E, no decorrer do tempo, se ele ou seus professores não percebem esse comportamento autossabotador, uma coleção de frustrações se sucederá.

A sensação de estagnação não é privilégio apenas daqueles que se propõem a aprender uma língua estrangeira, ela é inerente a todo processo de aprendizagem e se caracteriza por nos causar sensações de desânimo e ansiedade em relação ao progresso na nossa jornada. Algumas características de personalidade favorecem esse estado de desânimo e situação de estagnação. O perfeccionismo é um deles. Vamos juntos nessa reflexão!

Imagine-se na seguinte situação: você está no meio de uma aula da língua estrangeira que gosta muito ou precisa desesperadamente aprender e pede licença para fazer uma pergunta: “Professora, o que significa (coloque aqui a palavra que quiser)?”. Qual não é sua surpresa quando sua professora responde: “Depende! Onde você viu essa palavra?”. Que tipo de sentimento aflora em você? Você fica desapontado ou curioso? A resposta para essa pergunta parece boba, mas pode dizer muito sobre como você entende o conceito de língua. Você já parou para pensar sobre isso? O que é língua para você? E língua estrangeira? Se ainda não, faça isso agora. Ter claro esse conceito ajuda muito no processo de aprendizagem de uma língua estrangeira, a entender a maneira como você aborda o aprendizado e quais forças da sua personalidade estão presentes quando você aprende.

Analise sua resposta. Se você tivesse que substitui-la por uma imagem, ela seria uma linha reta ou um círculo? Se você escolheu a linha reta para representar o conceito de língua, é bem provável que você vá se incomodar com a resposta da sua professora quando perguntar a ela o significado de uma palavra. Se você escolheu o círculo, talvez a curiosidade seja uma característica predominante no seu perfil de aprendiz. O que penso te mostrar com essa analogia é que aceitar que, em se tratando de línguas, dificilmente teremos verdades ou certezas e que, se somos dependentes de respostas “certas”, o processo de aprendizagem poderá ser mais doloroso e demorado. É óbvio que o conceito de língua é muito mais complexo do que essa analogia que proponho, mas acredito que ela possa ajudá-lo a lidar melhor com a compreensão de nosso “conteúdo” de aprendizagem – aliás, se me permite te dar uma dica, não olhe para a língua estrangeira que está aprendendo como um conteúdo. Língua é muito mais que isso. Língua nos permite agir no mundo, interagir, conectar-nos, enfim, existir. A língua vive, é dinâmica e não pode ser um conteúdo, porque não é estática.

Propus esse exercício para tentar te mostrar que desejar ter certezas quando se trata de aprendizagem de língua estrangeira pode causar frustração e, consequentemente, desmotivação. Não conseguimos ter muito controle sobre os significados das palavras. Só no dicionário (e olhe lá!). É claro que a gramática ajuda a normatizar e nos dá um pouco mais de segurança, mas a aprendizagem é um processo e a máxima é errando que se aprende também é muito válida quando decidimos desenvolver proficiência em um idioma. A língua em uso exige da gente um olhar mais flexível e malemolente, sabe? E para que consigamos obter bons resultados de aprendizagem, é preciso afrouxar um pouco as nossas rédeas. É muito importante que façamos a nossa parte frequentando as aulas, estudando, expondo-nos ao idioma um pouco todo dia, colocando-nos presentes e sabendo claramente o porquê de caminharmos nessa estrada, mas é imprescindível que abracemos o processo como um processo, sabendo que erros acontecerão, que respostas prontas não necessariamente virão e que esse desejo por perfeição mais nos desvia da conquista do que nos ajuda.

Um traço de personalidade muito comum entre alunos adultos é o perfeccionismo. Você se identifica? Eu travo uma batalha contra ele em diversas áreas da minha vida e trabalho todo dia para compreendê-lo e ressignificá-lo. Um caminho que escolhi foi o de sempre me perguntar se aquele é um comportamento da perfeccionista ou da pessoa que procura por excelência. Definitivamente são coisas completamente diferentes. 

Quando decidimos que queremos desenvolver proficiência em língua estrangeira, é bastante recomendável refletirmos sobre isso. Quanto da minha porção perfeccionista me acompanha nos momentos durante a aula ou em qualquer outra situação que eu tenha que produzir de maneira oral ou escrita a língua que estou estudando? Quantas vezes já deixei de escrever ou falar algo porque achei que não estava certo? Esse é o papel do senhor perfeccionismo: evitar o erro! E mesmo que saibamos que o erro faz parte do processo, demoramos a nos permitir errar na frente dos outros. O perfeccionismo esconde sentimentos de vergonha, baixa autoestima e orgulho, e funciona como um escudo que nos protege e nos impede de parecermos ridículos na frente das pessoas e, assim, evita sentimentos de desconexão e não pertencimento. 

Por outro lado, a busca pela excelência está diretamente ligada à motivação intrínseca e demanda muita coragem e honestidade conosco. Para aprendermos uma língua estrangeira e ampliarmos nossa visão de mundo não há milagre, não há solução mágica, fórmula infalível ou método que garanta a fluência em três meses ou seu dinheiro de volta. É preciso trabalho duro, intencionalidade e persistência (Como tudo na vida, né?). Os atalhos pouco ajudarão. Como todo processo de aprendizagem, é um exercício de autoconhecimento. O aprendiz que busca pela excelência tem atitudes positivas em relação ao objetivo que desenhou para si, independentemente do julgamento e opinião dos outros. Em aula, não importa o nível de proficiência que apresenta, ele se arrisca, pois vê os erros como oportunidades para aprender e continuar tentando. Ele também acredita que suas conquistas não o definem. 

Saber buscar pela excelência ao invés de desejar ser perfeito está diretamente ligado ao conceito de autoeficácia proposto pelo psicólogo canadense Albert Bandura. De acordo com ele, a autoeficácia é a crença que temos sobre nossa habilidade em obter sucesso nas atividades que desempenhamos. No contexto de aprendizagem de línguas, podemos inferir que, ao acreditarmos que conseguimos realizar alguma tarefa durante a aula, essa atitude já nos ajuda a obter sucesso na atividade. Muitas pesquisas sobre autoeficácia e aquisição de línguas foram realizadas na Linguística Aplicada e elas indicam estreita relação entre uma e outra no que diz respeito ao nível de sucesso dos alunos, uso de estratégias, níveis de ansiedade, habilidade de autorregulação e gerenciamento do seu aprendizado. 

O convite que faço, então, é: se joga! Tente deixar o seu perfeccionista impostor descansando enquanto você estiver em aula ou em situação de uso da língua. Cuide das suas emoções enquanto estiver imerso no processo. O cérebro prioriza as reações emocionais. As emoções sempre irão sobrepor os processos cognitivos quando a reação for intensa. Se elas forem cuidadas, a experiência fica mais leve. Confie em você, no seu professor, nos seus colegas. Todos sabemos que é preciso errar. Imagine se você só pudesse dar uma volta de bicicleta por aí quando soubesse tudo sobre bicicletas e tivesse a capacidade de prever e controlar suas quedas. Esse dia provavelmente nunca chegaria, se você não tivesse sentado na bicicleta, arriscado as primeiras pedaladas e se espatifado no chão algumas vezes. E, lembre-se, no começo são trajetos curtos e com a ajuda das rodinhas. Só depois de muita prática diária que você é capaz de sustentar trajetos mais longos e até ousar soltar as mãos.

Abra-se para o imprevisível. Abrace a chance de poder errar, principalmente em níveis iniciais. Estabeleça objetivos de aprendizagem de curto prazo e celebre as conquistas. Peça ajuda se não conseguir se arriscar. Converse com seu professor, com seus colegas e com pessoas que você sabe que também estão aprendendo aquele idioma.

Quando você se propõe a prestar atenção nas suas emoções enquanto aprende, é possível que você perceba com antecedência o impostor tentando agir e te convencer que você não está evoluindo, o que dispara aquela sensação ruim de desânimo e incompetência. Não é apenas se comunicar naquela língua estrangeira que você aprenderá nessa empreitada. Se você se entregar ao processo, vai descobrir muito sobre você também.