Estudantes entram na reta final para o Enem

Consultora de português do CCLi Letícia Pereira concede entrevista ao jornal Diário da Região, edição do dia 31 de outubro, sobre o Enem.

Maria Stella Calças

A nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) será usada por pelo menos 59 universidades para selecionar os alunos do ano letivo de 2011. Neste ano, estão inscritos 4,6 milhões de estudantes, entre os quais 827 mil apenas no Estado de São Paulo. A maratona de provas no próximo final semana, 6 e 7 de novembro, é a chance de conseguir um bom conceito e, assim, estar habilitado para concorrer aos cursos oferecidos pelas instituições de ensino mais importantes do País.
Cada universidade tem autonomia do Ministério da Educação para utilizar a nota do exame da forma que bem entender na hora de selecionar os estudantes. O Diário apurou que 25 instituições usarão somente a nota do Enem na seleção. Fazem parte desse rol a Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) – no último caso, somente o curso de medicina terá processo de seleção tradicional.
O restante das universidades usará os conceitos do exame em vagas remanescentes ou como complemento do processo seletivo. Quando foi criado em 1998, o Enem tinha apenas um objetivo: avaliar o conhecimento obtido pelo aluno do ensino médio. Hoje, no entanto, serve para selecionar e é critério obrigatório para quem planeja participar do Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies) em 2011. Quem não fizer a prova, segundo o Ministério da Educação, não poderá participar do programa. Diferente dos vestibulares, o Enem não cobra somente o conhecimento técnico de cada área. “É um tipo de vestibular longo, cansativo e exige um aluno que tenha conhecimento técnico, mas também habilidades de interpretação de diversos tipos diferentes de textos, como poéticos, crônicas, dissertações”, explica o professor de geografia Leonardo Almeida. Ele dá aula em cursinho de Rio Preto.

O sociólogo e membro do Conselho Nacional de Educação, Cesar Callegari, defende o Sistema de Seleção Unificada (Sisu). “Sobre o Enem nós temos um controle, o que não acontece com os outros vestibulares. A prova do Enem é elaborada para não cobrar coisas decoradas do aluno, mas sim a capacidade de uma análise crítica e ligação entre as diversas áreas do conhecimento.”

Discórdia
O Enem divide a opinião dos estudantes. Mateus Calixto Colturato, 19 anos, presta medicina e vai aproveitar que a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) aderiu ao sistema criado pelo MEC para se candidatar a uma vaga. “Não preciso viajar para fazer a prova. Não custa nada me inscrever.”
Concorrentes como Mateus são a maior preocupação de seu xará Mateus Alves de Melo, 17 anos. Ele também busca uma vaga no tão sonhado curso de medicina. “O Enem fez crescer a concorrência. Não gosto da prova. Prefiro o vestibular convencional. Sou melhor em provas dissertativas e o Enem usa textos muito longos.”
A maior reclamação dos estudantes é o formato da prova. “O nível não é muito elevado, mas é uma prova cansativa”, afirma Letícia Bernaducci Glerian, 18 anos, que tenta vaga no curso de medicina. Ela só vai aproveitar a nota do Enem na primeira fase da seleção da Unifesp. “A gente presta essa prova na esperança que ajude”, diz.
Assim como Letícia, Lucas Henrique Marcussi Souza, 18 anos, não está muito animado. “Quero o curso de engenharia de alimentos na Unesp. A nota do Enem não vai mudar muita coisa. A Unesp só usa o resultado do Enem na soma final da segunda fase.”

Redação exige atenção, foco e coerência
A redação é um dos pontos mais relevantes de qualquer avaliação. E também para esse item, como para o resto da prova, ler – muito e sempre – é um prerrequisito essencial. “Para qualquer vestibular o mais importante é estar informado. Temas atuais, recorrentes na mídia, são sempre cobrados nesses tipos de prova”, explica a consultora de língua portuguesa Letícia Pereira.
Prestar atenção na proposta da redação é fundamental. “Ter uma interpretação correta de textos também é muito importante, porque eles sempre dão texto de apoio. Ler o texto de apoio e inserir o tema sugerido nas informações contidas nesses textos é essencial”, afirma Letícia.
Manter o foco no tema proposto também é essencial. “A fuga do tema zera a redação, então o aluno tem que prestar muita atenção nisso.” O candidato que pretende entregar uma boa redação deve prestar atenção no que escreve e manter coerência. “Para uma boa redação, é preciso uma boa organização das ideias. Às vezes o aluno interpretou adequadamente o tema e se perde quando vai colocar o conteúdo no papel”, afirma a consultora.

Atenção
Segundo Letícia, o espaço restrito aumenta a dificuldade de organização das ideias. “Como são 30 linhas no máximo, o aluno que coloca muitos argumentos – geralmente porque entende do assunto – acaba não tendo espaço para explicá-los corretamente e pode passar ideia de desorganização.”
A consultora afirma que o importante em uma redação não é a quantidade de argumentos, mas sim a qualidade. “É preferível que o aluno coloque menos argumentos, mas que possam dar um forte embasamento”, diz.

Táticas para se dar bem
Ler muito é o mais importante na preparação para qualquer avaliação. Essa é a dica unânime entre os especialistas. “A preparação para o Enem é a mesma que para os outros vestibulares. O aluno deve ler constantemente, tanto os textos recomendados para o exame quanto os do dia a dia. Além de treinar bastante a interpretação”, afirma a psicóloga Silvana Parreira, de Rio Preto.
A prova, considerada cansativa pelos alunos, requer mente descansada. “Não adianta tentar estudar tudo na véspera da prova porque isso gera mais ansiedade e pode causar o famoso branco”, afirma Silvana. “O importante é continuar com os estudos que estavam tendo até agora, sem querer forçar a barra no final, para que não haja um cansaço, um estresse tanto físico quanto mental que pode atrapalhar na prova. O segundo dia é muito intenso, muito cansativo, e se o aluno quiser apertar o pé nessa reta final, pode ser que ele se prejudique pelo cansaço”, afirma João Lucas Barban Ruiz, professor de biologia.
Para Ruiz, a preparação antes da prova também é importante. “O aluno deve ter uma boa noite de sono, dormir cedo no dia anterior ao da prova, acordar num horário que ele julgue que já esteja descansado. Também é importante ter boa alimentação no dia do exame, de preferência leve.”
“É sempre bom levar água, um chocolate ou algo para comer durante a prova, além de chegar sempre com antecedência, para evitar o estresse”, afirma a psicóloga. A prova do Enem não cobra conteúdos diferentes dos vestibulares, mas exige o conteúdo de uma maneira diferente. “É importante estar descansado para que a leitura do texto e a interpretação sejam feitas com tranqüilidade”, explica Ruiz.

MEC muda regras de financiamento
A partir deste ano, os interessados em participar do Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies) deverão cumprir novas regras. O Ministério da Educação (MEC) determinou que o interessado em participar do programa em 2011 tem, necessariamente, que participar do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
Outras mudanças foram feitas nas regras do financiamento. Agora, o Fies tem um fundo de garantia que dispensa o fiador para os novos contratantes. Com isso, o MEC quer ampliar o atendimento às pessoas de baixa renda, gerando oportunidades para que elas cursem uma universidade.
Outra novidade é a ampliação do prazo para solicitação do financiamento. O estudante pode solicitar o Fies em qualquer período do ano. As bolsas oferecidas podem ser de 50%, 75% ou 100% do valor da mensalidade. As inscrições ainda não foram abertas, mas serão feitas exclusivamente pela internet, no site http://sisfies.mec.gov.br.

Exame cobra postura de cidadão
A prova do Enem difere dos vestibulares tradicionais em vários aspectos, entre os quais a forma de avaliar os conhecimentos do aluno. Cidadania, por exemplo, é assunto que faz parte do exame. O uso do tema, no entanto, gera divergência. “Os alunos têm noção de cidadania. Hoje em dia, a própria mídia disponibiliza isso.
Os jovens têm muito mais contato com informações do dia a dia”, afirma o professor de biologia João Lucas Barban Ruiz. Para a psicóloga Silvana Parreira, os jovens estão pouco ligados ao tema. “Eles estão falhos na postura de cidadão. Aprendem uma coisa em casa, outra na escola e mais alguma no convívio com os amigos. Não tem compromisso e postura de cidadão.”
Para Ruiz, outros vestibulares deviam seguir o exemplo do exame. “O Enem é uma preparação para a vida. O vestibular cobra muitos conhecimentos específicos. A pessoa que entra na faculdade não tem plena noção de cidadania.” Segundo Silvana, falta comprometimento do aluno. “Muitos jovens não têm compromisso com a escola e o estudo. Eles têm que aproveitar as oportunidades. Muitos saem do ensino superior sem essa noção de cidadania e acabam sendo pressionados no mercado de trabalho.”

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